Análise · trace · 13/09/2026

Pesquisa encomendada pela Samsara: itens abaixo de US$ 10 mil concentraram 72% dos custos relatados por operações sem rastreamento

No levantamento com 1.500 executivos financeiros, recursos de menor preço concentraram a maior parte dos custos relatados. A governança precisa considerar também criticidade, reposição e indisponibilidade.

Evener Menezes

Quanto vale um recurso de R$ 2 mil? A resposta mais óbvia é: R$ 2 mil. Mas talvez essa seja a conta errada. Se um sensor interrompe uma etapa, uma ferramenta deixa uma equipe esperando ou um notebook concentra o único acesso para uma atividade urgente, seu preço explica pouco sobre o impacto da indisponibilidade.

Em julho de 2026, a Samsara publicou o relatório 2026 State of Connected Operations: Asset Theft & Loss. A pesquisa, encomendada pela empresa — que comercializa tecnologia de rastreamento —, foi conduzida online pela Wakefield Research entre 5 e 17 de fevereiro com 1.500 executivos financeiros nos Estados Unidos, México, Reino Unido, Irlanda, França, Alemanha e Canadá. Os participantes não eram necessariamente clientes da Samsara, e os resultados globais foram agregados.

Entre organizações sem rastreamento, os respondentes autorrelataram média anual de US$ 13,2 milhões em custos diretos e indiretos decorrentes de recursos desaparecidos. Segundo o relatório, 72% desses custos vieram de itens avaliados abaixo de US$ 10 mil. Na amostra global, 77% disseram que a ausência de um recurso crítico causou paralisação ou atraso significativo nos 12 meses anteriores. Nas operações sem rastreamento, 27% relataram mais de dez horas semanais gastas em buscas, e o tempo médio para localizar um recurso desaparecido, quando encontrado, foi de 25 dias.

Esses números são estimativas declaradas em uma pesquisa comercial, não medições auditadas nem regra universal. A maioria das organizações pesquisadas tinha receita anual entre US$ 250 milhões e menos de US$ 1 bilhão. Ainda assim, a concentração relatada nos itens mais baratos torna visível um erro de gestão: usar o preço de compra como atalho para decidir quanto controle um recurso merece.

Preço e criticidade respondem a perguntas diferentes

O valor de aquisição responde quanto custou obter o item. A criticidade responde o que deixa de acontecer sem ele. São dimensões relacionadas, mas não equivalentes.

Uma máquina cara pode ter redundância e substituição disponível. Um periférico barato pode ser o único compatível com um equipamento antigo. Um smartphone pode ser rapidamente comprado, mas levar dias para receber configuração e aprovações. Uma ferramenta simples pode ser indispensável em local remoto, onde a entrega demora mais do que o serviço.

Esses exemplos são reflexões operacionais, não conclusões da pesquisa da Samsara. Eles mostram por que a classificação precisa considerar ao menos quatro dimensões: valor de aquisição, criticidade para o processo, tempo e custo de reposição e impacto da indisponibilidade. Quando apenas a primeira entra na análise, controles tendem a se concentrar nos bens caros, enquanto um grande volume de itens menores circula com responsabilidade e evidência mais frágeis.

A criticidade depende do contexto de uso

Nenhum recurso é crítico por natureza em todas as situações. O mesmo modelo de notebook pode ser substituível em uma área e indispensável em outra. Um sensor comum no estoque central pode se tornar crítico em uma unidade distante. A classificação, portanto, não deveria morar apenas no cadastro do item; precisa estar ligada ao processo que ele sustenta, ao local em que opera e às alternativas disponíveis.

Isso também evita outro erro: tratar todo item barato como crítico e criar uma burocracia impossível de manter. Governança proporcional não significa aplicar o controle máximo a tudo. Significa reconhecer consequências diferentes e escolher controles compatíveis com elas.

Um recurso de baixo preço, baixa criticidade e reposição imediata pode exigir um registro simples. Um item de preço baixo, sem substituto e com reposição demorada pode justificar responsável definido, histórico de movimentação, verificação de disponibilidade e tratamento rápido de divergências. O critério deixa de ser “quanto perderíamos na baixa?” e passa a incluir “o que acontece até esse recurso voltar a operar?”.

Rastreamento não decide o que é importante

Tecnologia pode registrar localização e reduzir o tempo de busca, mas não determina sozinha a criticidade, não corrige uma responsabilidade mal definida e não escolhe qual processo deve ter prioridade. Tampouco todo recurso exige monitoramento contínuo.

O controle relevante combina classificação operacional, regras de custódia, acesso adequado aos registros, evidência das movimentações, revisão periódica e testes do processo. A decisão humana continua necessária para validar exceções, ajustar critérios e escolher entre esperar, substituir, redistribuir ou interromper uma atividade. Sem esse conjunto, a organização pode acumular dados de localização e ainda não saber qual ausência merece resposta imediata.

Faça o teste com dez recursos baratos

Selecione dez recursos considerados de “baixo valor” — notebook, smartphone, ferramenta, sensor, dispositivo operacional, periférico ou equipamento de campo — e responda para cada um:

  • Se este recurso desaparecer hoje, o processo continua?
  • Quanto tempo levaria para substituí-lo?
  • Quem perceberia sua ausência?
  • Existe outro disponível?
  • Quem responde por ele agora?
  • Existe evidência de sua localização ou última movimentação?

Depois compare as respostas com a classificação financeira. Se um item contabilmente pequeno não tem substituto, demora a ser reposto e pode parar uma atividade, seu risco operacional não é pequeno. Se ninguém percebe sua ausência nem consegue demonstrar onde esteve, a empresa talvez descubra sua importância apenas quando precisar dele.

O recurso mais caro chama atenção antes de desaparecer. O recurso crítico chama atenção quando já faz falta. Uma governança melhor reduz essa surpresa ao separar preço de consequência e aplicar controle segundo a continuidade que cada item ajuda a preservar.

Referência pública

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